CRONOLOGIA DE GUIGNARD

  • 1896 – Alberto da Veiga Guignard nasceu em Nova Friburgo, cidade carioca, em 25 de fevereiro de 1896. Era filho de José Alberto Guignard, que morreu em acidente enquanto limpava uma arma em 1906, e de D. Leonor da Veiga, que se casou novamente, pouco tempo depois, com um barão alemão, arruinado financeiramente pelo que consta, de nome Friedrich von Schilgen.

 

  • 1900 – Nascimento de Leonor, sua única irmã.

  • 1901 – Mudança da família para Petrópolis, para onde seu pai, Fiscal de Impostos, foi removido.

  • 1903 a 1906 – Completa o Curso Primário naquela cidade. Suas professoras costumavam chamar a atenção dos pais para a facilidade que o menino demonstrava no desenho, merecendo ensino especial.

  • 1907 – É levado, em janeiro, para a Europa.

  • 1907 a 1909 - Morando um ano na Suíça e dois anos na França, completa o Curso Secundário.

  • 1910 a 1913 – Faz na cidade alemã de Freising, perto de Munique, numa escola-fazenda, o Curso de Agronomia, por imposição do padrasto.

  • 1914 e 1915 – Faz o curso preparatório de arte no atelier de um pintor acadêmico, em Munique, para onde sua mãe, novamente viúva, se mudou.

  • 1916 – Presta exame (equivalente ao vestibular brasileiro) para ingresso na Real Academia de Belas Artes de Munique, logrando aprovação e matriculando-se nos cursos dos Professores Adolf Hengeler e Hermann Groeber, bastante satisfeito, pois era tudo quanto queria naquele instante.

  • 1917 – Visita exposição do grupo Die Brücke, liderada por Ernst Ludwig Kirchner, sofrendo verdadeiro impacto com a nova visão ali mostrada.

  • 1918 e 1919 – Com bolsa da Academia de Munique e por indicação de Hengeler, passa dois anos na França, primeiro em Grasse e logo em seguida em Paris, onde continua o curso de desenho na Escola Nacional de Belas Artes e onde faz cursos paralelos de pintura com Raoul Dufy, Henri Matisse e, principalmente, Georges Rouault. Nessa ocasião se relaciona, em um dos cursos que seguia, com um jovem, parente de Henri Rousseau (morto em 1910), de cujo espólio era o zelador. Foi a convite do novo amigo algumas vezes àquela casa, onde o duaneiro morou e onde suas pinturas, que enchiam todas as paredes do lugar, ficavam penduradas. Ali pôde admirá-las a contento. Data daí o real encantamento de nosso pintor pela obra de Rousseau.

 

  • 1920 – Passa o ano em Munique, prestando contas, na Academia, do primeiro aprendizado estrangeiro e concluindo o Curso de Desenho, com distinção outorgada por seus mestres. Nesse período, tem a oportunidade de ver, não só em Munique, mas também em outras cidades alemãs, várias mostras de pintores expressionistas. Faz ainda algumas viagens aos Países Baixos (Bruxelas, Bruges, Antuérpia, Amsterdam, etc.), para observar e estudar nos museus locais as paisagens dos pintores flamengos e holandeses, que tanto admirava, cujas obras podia estudar também na Pinacoteca de Munique.  

  • 1921 e 1922 – Ainda com a mesma bolsa, passa dois anos em Florença, onde estuda pintura na Academia de Belas Artes e onde descobre a arte de Sandro Botticelli, pela qual se apaixona e cuja paixão vai carregar dentro de si para o resto da vida. Mas tem ainda profundo contato com a arte dos demais renascentistas, de Cimabue e Giotto a Michelangelo e Leonardo, a qual estuda.

                              

  • 1923 – Casa-se em Munique, no princípio de janeiro, com uma alemã estudante de música, dois anos mais nova, chamada Anna Döring, que já namorava fazia algum tempo. A jovem era filha da dona da pensão, onde Guignard residia. Este casamento é um episódio algo nebuloso na biografia de Guignard, pois ele mesmo não gostava de falar no assunto, por considerá-lo uma lembrança bastante dolorosa. Mas consta que, tendo cumprido no primeiro semestre as cargas horárias do Curso de Pintura, deslocou-se com a mulher já grávida para Florença, a fim de prestar exames que ficara devendo. Todavia, parece que as coisas desde o início não andavam bem entre eles: a julgar por comentários bastante evasivos do próprio Guignard a respeito, Anna era uma pessoa muito nervosa e muito “pé-no-chão”, e ele, ao contrário, era um romântico “balão”. Dada esta diferença de gênios, um mês e pouco depois da chegada a Florença, o casal teve um desentendimento insuperável. Anna abandonou o marido e voltou para Munique, onde seu filho nasceu algum tempo depois. Enquanto isso, o artista, amargurado - e amargurado para sempre, pois jamais se esqueceria do episódio - teve que se deslocar para Paris, também a fim de prestar exames devidos, ocasião na qual, inclusive, participou pela primeira vez do famoso Salão de Outono parisiense.

  • 1924 – De volta a Munique, onde conheceu o filho recém-nascido, prestou os exames finais na escola e, de imediato, foi enviado ao Brasil pela própria Academia, com carta de apresentação às nossas autoridades e instituições, para aqui cumprir “estágio comprobatório profissional”. Desde a chegada, ficou maravilhado com o Brasil, de que não se lembrava tão bem assim, além de suas lembranças serem as de um menino. Guignard sempre falava do impacto, que teve, ao desembarcar no Rio, em face da inebriante luminosidade tropical, que fazia as cores ficarem tão diferentes daquelas a que estava acostumado. Aqui entrou em contato com inúmeras personalidades dos meios artísticos locais, fazendo amizade, principalmente, com os pintores Ismael Neri, Cândido Portinari e Manoel Santiago, bem como com o poeta e crítico Manuel Bandeira; amizades que renovaria quando de seu regresso definitivo ao Brasil, em 1929, e que lhe seriam de grande proveito. Expôs algumas vezes ao longo do ano com grupos de artistas, destacando-se no noticiário da imprensa à época, e participou no fim do ano do Salão Nacional de Belas Artes, sendo agraciado com Menção Honrosa. Guignard se sentia disposto e satisfeito com o estágio e sua satisfação só não era completa, porque soube, dias antes de inaugurado o Salão, da morte de seu filho mal cumprido o primeiro ano de vida; isto o deixaria desolado para sempre. No final de 1924 retornou à Europa, passando uma temporada em Florença e Paris.

 

  • 1926 – No princípio daquele ano sua mãe, Dona Leonor, morreu em Menton, na Riviera Francesa, fato este que o deixou literalmente consternado, pois perdia com a ausência da mãe a sua mais importante referência de vida, bem como sua melhor amiga.

  • 1926 a 1928 – Certamente, seu estágio brasileiro foi considerado muito proveitoso, pois, à volta, recebeu com louvor o diploma de Belas Artes. Por não ter outra ocupação além da arte, aceitou contive para atuar como Monitor da Cadeira de Pintura na Academia, função que desempenhou durante três anos. Nesse período, tentou algumas vezes reaproximação com Anna Döring, que a tanto se negou definitivamente. No final de 1928, após ligeira viagem a Paris, onde participou novamente do Salão de Outono, e a Veneza, onde participou da Bienal, foi convidado, por indicação de Manoel Santiago, a assumir cadeira de pintura na Fundação Osório do Rio de Janeiro. Guignard recebeu o convite com ânimo e entusiasmo, pois viu aí a oportunidade de afastar-se de vez dos problemas e tristezas que o fracasso amoroso lhe acarretara, e mesmo superá-los numa vida nova e num País inteiramente diverso, que afinal era o seu. Mas poucos meses antes de seu retorno, perdeu sua única irmã, Leonor, vítima da tuberculose, então casada com o alemão Heinrich Otto Robert Liegbert, que também gostava de pintar. O fato deixou-o ainda mais amargurado, tendo sido mais um fator a apressar-lhe o retorno, pois se sentiu sozinho ali no Velho Mundo, sem ter mais nenhum parente por perto.

     

  • Guignard participa, no Rio, de homenagem a Portinari, estando presentes, além dele, Maria Portinari, o homenageado, Glorinha Santa Rosa, Fernando Cosme, Raquel de Queirós, Santa Rosa, Ismailovich, Barros de Carvalho, Jorge de Lima, Amália de Carvalho, J. Cláudio C. Ribeiro, Mário de Andrade, Alcântara Machado, Dilermando Cox, Roberto Burle Marx, Osório Borba, Alcides de Rocha Miranda, Augusto Rodrigues, Sotero Cosme, Enrico Bianco e Manoel Bandeira.

  • 1929 a 1943 – Assim, ei-lo desembarcando finalmente em sua Pátria, no início de 1929, para aqui viver em caráter definitivo até o final de seus dias. Em 1930, recebeu a notícia da morte de sua ex-esposa, aos 32 anos, e sempre se mortificava, como contou certa vez, por ter deixado a Alemanha sem sequer se despedir dela, movido pelo propósito de pequena vingança ou quem sabe despeito?...   Durante quinze anos vividos no Rio de Janeiro, intensificou suas atividades artísticas, pintando com afinco, expondo individual e coletivamente em vários espaços e, principalmente, ensinando desenho e pintura quer na Fundação Osório, quer na antiga Universidade do Distrito Federal e mesmo em seu estúdio da Rua Marquês de Abrantes, a que Manuel Bandeira denominou “Atelier a Nova Flor do Abacate”, apegando-se ao nome de uma boate que antes havia no lugar, isto já em 1943, onde teve como alunos, entre outros, Iberê Camargo e Alcides da Rocha Miranda.  Os artistas jovens daquela época sempre procuravam-no ali em virtude da fama que seu modo descontraído de ensinar angariou. Nesse período e mesmo posteriormente, além de algumas individuais e de exibições anuais didáticas junto com seus alunos, participou de inúmeros eventos artísticos importantes. No Salão Nacional de  Belas Artes, em que marcava presença regularmente, obteve, além da Menção Honrosa de 1929, Medalha de Prata em 1939, Prêmio de Viagem ao País em 1940, Medalha de Ouro em 1942 e Medalha de Honra, então prêmio máximo daquele certame, em 1951, quando já residia em Minas. Em 1937 e 1938 participou do Salão de Maio I e II de São Paulo. Em 1945 integrou mostra itinerante de artistas brasileiros por vários países americanos, fato que se repetiu em 1957. Finalmente, em 1951 e em 1953, já morando em Belo Horizonte, participou com destaque da I e da II Bienal de São Paulo. É preciso comentar à parte, para constar, o ano de 1940. Tendo conquistado o prêmio de viagem ao País no Salão Nacional, optou por conhecer  Minas Gerais, sobre cuja magia seus amigos tanto falavam. Ficou maravilhado desde a chegada. Belo Horizonte já o encantara. Mas quando conheceu as cidades históricas, Ouro Preto, Mariana, Sabará, São João Del Rey, Santa Luzia... então sua cabeça mudou radicalmente. Para usar suas palavras, ditas em mesa de bar, rememorando esta passagem: “Foi amor à primeira vista. A partir dali, minha pintura jamais poderia continuar a mesma”. Desde então, sempre que lhe era possível, fugia para Minas. Em 1942, enquanto pintava duas telas sobre a Lagoa da Pampulha, uma do lugar onde se construiria o Cassino,  e outra,  da  margem oposta, encomendadas por Kubitschek, que teria conhecido o pintor em Munique, em 1929, e por recomendação de Portinari, comentando com este sobre  sua admiração por  Minas  e sobre suas idas  e vindas,  disse:

“Hoje, meu caro, eu tenho um pé carioca e outro mineiro”. Então, Portinari perguntou-lhe: “E o coração?” “Ah! – respondeu  Guignard – esse ficou perdido no alto de Santa Efigênia!...” Esse diálogo foi reproduzido em conversa por Santa Rosa, que estava presente. Ainda nesse período, as vezes em que se encontrava em Belo Horizonte, Guignard,  já relativamente conhecido à época, sempre era procurado pelos jovens talentos emergentes de então, sequiosos por aprenderem coisas novas, entre os quais Silésio, Lodi, Coutinho, Bax... e sempre aproveitava a oportunidade para dar-lhes ligeiras aulas de desenho e pintura.

  • 1944 a 1962 – No princípio de 1944, o Prefeito Juscelino, dando seguimento ao seu plano de atualização cultural da cidade, criou o Instituto de Belas Artes, composto pela Escola de Arquitetura, existente em caráter particular desde 1930 e que se tornaria em 1946 uma das unidades da UFMG, e por uma Escola de Belas Artes consubstanciada inicialmente num Curso Livre de Desenho e Pintura. Por indicação de Niemayer e Portinari, Guignard foi convidado para dirigir o Curso e, a partir daí, transferiu-se definitivamente para Minas Gerais. Veio esperançoso e animado, pois lá no fundo sentia que, por um lado, o encantamento despertado pelas  cidades de  Minas poderia levá-lo a profundas mudanças, para melhor, em seu estilo e, consequentemente, à realização de uma grande obra, coisa ambicionada por todo artista; e, por outro lado, agora com o apoio do poder municipal e o ansioso interesse de aprendizado e renovação demonstrado pelos jovens, que o procuravam em levas, poderia realmente fazer uma grande escola.   Eis em linhas gerais as expectativas de Guignard, ao fixar-se em nosso meio.  Todavia, se, por um lado, as paisagens mineiras o instigavam à realização de uma obra marcante, como aconteceria, e o interesse dos jovens talentosos era uma realidade, por outro lado, o esperado apoio do poder público foi uma decepção. Ora, o Prefeito criou o Instituto em final de gestão. Se o setor de arquitetura já era estabelecido com meios próprios e podia caminhar com as “próprias pernas”, o curso de arte recém criado era apenas um bebê que precisava de amparo. Mas foi exatamente este que lhe faltou. Por incrível que possa parecer, o próprio Kubitschek, homem de visão tão ampla e largos horizontes, que havia gasto fortunas em outros projetos culturais, não se deu conta da importância de seu feito maior em prol de nossa arte, como seja o de ter trazido Guignard para cá. Acredito que, numa ordem de grandezas, o feito de tê-lo trazido foi muito mais importante para a nossa cultura, do que qualquer outro, inclusive o de ter construído o conjunto arquitetônico da Pampulha, do qual obviamente não se quer diminuir o mérito e a importância. Se o que pretendia era criar o conflito para discussão cultural, visando à modernidade, conseguiu, como muito bem expõe Ivone Luzia Vieira em seu livro sobre a Escola Guignard. Mas a custa de que sacrifícios? O Prefeito, em seus últimos meses à frente da municipalidade, criou a expectativa, mas deixou Guignard e sua Escola entregues à própria sorte. Alguns poderiam concluir que não teve tempo de prover a criação, já que sua gestão acabou. Contudo, e depois, seja como Governador, seja como Presidente, por quê nunca mais deu alguma  assistência à  Escola?  Tivesse construído um  prédio  para ela, ainda que modesto, e lhe tivesse garantido meios de subsistência, a história de nossa arte, sem a menor sombra de dúvida, seria contada hoje de maneira inteiramente diversa. Mas não fez. Limitou-se a prever no orçamento do ano seguinte uma pequena ajuda de custo para sustento do mestre (que, por ser aleatória e não ter absolutamente nenhum amparo legal, seria cortada em 1946 pelo Prefeito Otacílio Negrão de Lima, avesso aos modernismos, eterna pecha em sua folha) e conseguiu em caráter provisório uma sala de empréstimo num prédio municipal situado no Parque, onde já funcionou o Imaco e hoje funciona uma das unidades de ensino fundamental da municipalidade, de cujo lugar pouco depois o curso seria despejado. E só. De lá para cá, ao longo de todos esses anos, o arrastar-se da Escola por caminhos sempre difíceis é uma história de muitos atropelos e sofrimentos, vicissitudes que só a tenacidade do mestre e de seus alunos iria vencer.

  • 1950 a 1962 – A Escola, que teve antes do nome atual algumas outras denominações, ocupou vários outros espaços, mas sempre era despejada, até que “invadiu”, por volta de 1950, os porões do arcabouço do  Palácio das Artes naquele tempo em construção  (aliás por anos paralisada no ponto deixado por Juscelino, que a iniciara, e só mais tarde retomada), onde funcionou precariamente durante mais de quarenta anos. Todos esses lances são muito bem narrados em significativo opúsculo, que o historiador Antônio de Paiva Moura escreveu sobre a Escola. No meio de tantas dificuldades, teria alguma vez passado pela cabeça de Guignard a vontade de voltar para o Rio? É até possível. Mas o desafio de fazer uma escola e uma arte diferentes falou mais alto em seu coração e, teimosamente, resistiu à tentação do retorno. Em face da disputa já existente em Minas entre acadêmicos e modernos, acirrada por sua vinda, levantou a bandeira da atualização artística, recebida de Juscelino como necessária missão, e marchou em frente. Não obstante todos os obstáculos, dentro de comovente modéstia em todos os sentidos, que nos deixa perplexos, conseguiu, ao longo dos dezoito anos que viveu em Minas, formar várias gerações de artistas, muitos dos quais hoje nomes importantes na pintura brasileira. Simultaneamente, jamais se descuidou da realização da própria obra. À medida que o tempo ia passando, ao contato com as “coisas de Minas” seu estilo também foi se definindo, até chegar a uma linguagem única, vazada de sonho e poesia - o Estilo Guignard, um certo expressionismo romântico, no qual as influências recebidas desde os tempos de estudante foram coadas e rarefeitas pela visão guignardesca transbordante de inocência e amor.

  • 1962 – Quando, na triste manhã de 26 de junho de 1962, Guignard nos deixou, sua missão estava cumprida: a Escola tornou-se a realidade que é hoje, imponente lá no Alto das Mangabeiras, e sua arte, respeitada e amada por todos, é o orgulho de Minas.